Este relatório foi escrito por Alan Colin-Arce e Brittany Amell, com agradecimentos à Lucía Céspedes (assessora de pesquisa do Érudit), Irina Kuchma (diretora do programa de acesso aberto da EIFL) e Laura Baumvol (Professora, Universidade da Colúmbia Britânica) por suas revisões e comentários.
Tradução para o português de Leonardo Colato e Franco Guglielmoni
Informações gerais
| Título | Multilinguismo na Publicação Acadêmica de Acesso Aberto |
| Principais participantes | HSS Commons, Érudit, SciELO, AfricArXiv, Open Journal Systems, Governo do Canadá, Fonds de Recherche du Québec |
| Data | 2024 – presente |
| Palavras-chave | bibliodiversidade, multilinguismo, infraestrutura aberta, comunicação acadêmica, bens comuns digitais, pesquisa aberta social |
Resumo
Este relatório analisa os desenvolvimentos recentes em publicação multilíngue de acesso aberto. A publicação multilíngue de acesso aberto é importante para compartilhar trabalhos cultural e socialmente relevantes com públicos locais (Kulczycki et al., 2020) e para reduzir as barreiras para alcançar uma maior diversidade de perspectivas na academia (Suzina, 2021). De maneira similar, a Recomendação da UNESCO sobre Ciência Aberta cita a diversidade linguística como um dos princípios orientadores que a ciência aberta deve adotar.
Este relatório debate como o multilinguismo tem sido abordado em políticas e iniciativas de comunicação acadêmica no Canadá e em todo o mundo. Os itens discutidos nesta observação incluem:
- Uma visão geral das políticas e iniciativas que apoiam a publicação multilíngue em todo o mundo
- Uma breve explicação de como o HSS Commons traduziu sua interface para apoiar o multilinguismo
Multilinguismo e publicações acadêmicas em um contexto global
A falta de plataformas e infraestruturas multilíngues para compartilhar e mobilizar pesquisas acadêmicas limita a participação na criação e na distribuição do conhecimento digital, além de isolar pesquisadores, estudantes e o público que não é falante nativo de inglês (Viola, 2024). Dessa forma, é importante desenvolver infraestruturas de pesquisa que apoiem a disseminação do conhecimento em múltiplos idiomas, especialmente se existirem políticas que incentivem a publicação em línguas diferentes do inglês.
Projetos de comunicação acadêmica na América Latina e na África têm uma longa tradição de apoio à publicação multilíngue como parte de iniciativas de acesso aberto. Por exemplo, o SciELO, uma biblioteca digital de periódicos latino-americanos de acesso aberto estabelecida no Brasil, possui uma interface em inglês, espanhol e português. De maneira semelhante, a Rede Latino-Americana de Ciência Aberta (também conhecida como LA Referencia) é uma federação de repositórios disponíveis em inglês, espanhol e português que coleta artigos científicos e teses de doutorado e mestrado de dez países da América Latina.
Na África, o site do AfricArXiv usa tradução automática para traduzir partes de seu conteúdo, com 17 idiomas disponíveis. O AfricArXiv é uma plataforma que publica pré-publicações (preprints) de artigos científicos de pesquisadores africanos ou de pessoas cuja pesquisa é relevante para o continente, e aceita submissões em qualquer um dos mais de 2 mil idiomas falados na África (Asiedu, 2018). Até agora, o repositório recebeu publicações em ou a respeito de 33 idiomas.
Outra importante infraestrutura de acesso aberto que apoia a publicação multilíngue é o software Open Journal Systems (OJS), desenvolvido pelo Public Knowledge Project, que facilita a publicação de periódicos em várias línguas. Há também uma lista de idiomas nos quais o software está disponível, incluindo informações sobre o quão completas são as traduções. De acordo com um estudo realizado pela equipe do Public Knowledge Project, os periódicos que usam OJS publicam pesquisas em 60 idiomas. O estudo analisou 22.561 periódicos e constatou que a idioma mais comum é o inglês (usado em 49,7% dos periódicos), seguido pelo indonésio (23%), espanhol (11,4%) e português (9,8%). Embora as 10 línguas mais utilizadas nos periódicos que usam OJS representem 97% dos títulos, a diversidade de idiomas neles é maior do que na seleção de periódicos de bancos de dados comerciais, como Scopus ou Web of Science (Khanna et al., 2022).
Além das várias versões da interface do OJS, parte da documentação do software é traduzida pela comunidade. Por exemplo, o guia para administradores do OJS está disponível em francês, o guia de atualização para a versão mais recente do software está disponível em espanhol e indonésio e o guia para criar conteúdo acessível está disponível em português. Portanto, o OJS é uma tecnologia que não apenas possibilita e é utilizada para publicação em diversas línguas, como também constitui uma infraestrutura concebida desde sua origem para o multilinguismo.
A importância da publicação multilíngue também foi reconhecida em declarações recentes sobre comunicação acadêmica, frequentemente acompanhadas do apoio à bibliodiversidade, que se refere ao grau em que a indústria da comunicação acadêmica pode produzir uma ampla variedade de resultados de publicação em termos de idiomas, formatos de publicação e posicionamentos epistemológicos. Em 2017, a Jussieu Call for Open Science and Bibliodiversity começou afirmando: “O Acesso Aberto deve ser complementado pelo apoio à diversidade daqueles que atuam na publicação científica – o que chamamos de bibliodiversidade –, pondo fim ao domínio de um pequeno número entre nós que impõem seus termos às comunidades científicas” (Jussieu Call Group, 2017). Essa chamada está disponível para leitura em inglês, alemão, francês e espanhol e foi assinada por instituições e organizações de 12 países.
Em 2019, a Iniciativa de Helsínquia sobre o Multilinguismo na Comunicação Científica (disponível em 45 idiomas) defendeu a divulgação dos resultados de pesquisas em vários idiomas para o benefício de toda a sociedade, a proteção das infraestruturas nacionais para a publicação de pesquisas localmente relevantes e a promoção da diversidade linguística nos sistemas de avaliação, análise e financiamento de pesquisa.
Mais recentemente, em 2024, a Toluca-Cape Town Declaration não apenas afirmou que o conhecimento acadêmico é um bem público, mas também que o acesso aberto diamante deve ser impulsionado pela equidade e inclusão, promovendo diversidade, decolonização e desmarginalização. Embora a linguagem não seja mencionada explicitamente, ela está implícita nos objetivos de maior inclusão e diversidade.
Esses compromissos globais oferecem um contexto importante que nos permite destacar o próprio panorama da pesquisa bilíngue no Canadá. Como país bilíngue, o Canadá necessita de infraestruturas de pesquisa multilíngues que ofereçam suporte ao inglês e ao francês. Por exemplo, o Érudit é uma plataforma canadense que suporta periódicos de acesso aberto em inglês e francês nas áreas de artes, humanidades e ciências sociais. Além disso, o Humanities and Social Sciences (HSS) Commons recentemente traduziu sua interface para atender aos objetivos de fornecer uma infraestrutura multilíngue que apoie a difusão de resultados de pesquisa de acesso aberto linguisticamente diversos. Esses esforços serão detalhados na seção seguinte.
Apoiando a publicação multilíngue de acesso aberto no HSS Commons
Como uma iniciativa para desenvolver uma infraestrutura de pesquisa multilíngue que apoia a ciência aberta, a associação Implementing New Knowledge Environments (INKE) está desenvolvendo o Humanities and Social Sciences (HSS) Commons, uma infraestrutura sem fins lucrativos para a ciência aberta. O HSS Commons combina elementos de sites de redes sociais, ferramentas colaborativas e repositórios institucionais para que os usuários possam criar perfis, compartilhar publicações existentes, criar novas publicações com DOIs e licenças Creative Commons, iniciar grupos e projetos colaborativos para compartilhar arquivos e se comunicar, entre outras funções.
O HSS Commons colaborou com pesquisadores em diferentes partes do Canadá e no exterior para traduzir sua interface em inglês para o francês, espanhol, bengali e português, tornando o site mais acessível e útil para quem se comunica e pesquisa principalmente em idiomas não-ingleses. Esse trabalho está em consonância com a ênfase que o HSS Commons coloca na pesquisa acadêmica social e aberta. Embora as iniciativas e políticas de comunicação acadêmica canadenses e internacionais tenham reconhecido o valor do multilinguismo na pesquisa, a infraestrutura usada para acessar, pesquisar e difundir a pesquisa digital permanece monolíngue e projetada para falantes de inglês na maior parte, exceto em casos como aqueles mencionados na seção anterior.
No HSS Commons, o multilinguismo é tanto uma oportunidade de trabalhar diretamente com sociedades acadêmicas e grupos de pesquisa multilíngues, quanto um imperativo para facilitar, publicar e promover pesquisas em múltiplos idiomas.
Questões-chave e Considerações
Embora a importância de publicações multilíngues seja cada vez mais reconhecida nas políticas de acesso aberto e na prática, ela ainda enfrenta desafios. Primeiro, os autores temem alcançar públicos limitados se não publicarem em inglês e podem perceber os periódicos em língua inglesa como mais relevantes ou prestigiosos (Arbuckle et al., 2024). Apesar de ser possível usar tradução manual ou automática para aumentar a diversidade linguística das publicações acadêmicas, esse pode ser um processo custoso, trabalhoso e lento (Arbuckle et al., 2024), além de que as ferramentas de tradução automática são principalmente usadas para traduzir e publicar textos em inglês, ao invés de encontrar ou ler textos em outros idiomas (Bowker et al., 2023).
Em segundo lugar, as estimativas de multilinguismo nas publicações de acesso aberto e nas publicações acadêmicas em geral variam dependendo da base de dados. Por exemplo, 35% das revistas indexadas no Directory of Open Access Journals (DOAJ) publicam em dois idiomas ou mais (del Rio Riande & Lujano Vilchis, 2024). Entre os artigos indexados na base de dados Dimensions em 2023, 14,49% foram publicados em línguas diferentes do inglês (Pradier et al., 2025). No OpenAlex, cerca de 27% dos artigos estavam em línguas diferentes do inglês (Beigel, 2024). Entre as bases de dados latino-americanas, 70,7% dos artigos indexados no SciELO estavam em espanhol ou português, enquanto 71,8% dos artigos indexados na LA Referencia estavam em espanhol ou português (Beigel, 2024).
Em terceiro lugar, um problema entre as línguas que historicamente têm sido ignoradas pela ciência moderna, especialmente as africanas, é que muitas palavras usadas comumente na ciência nunca foram escritas nessas línguas (Wild, 2021). Masakhane, uma comunidade de processamento de linguagem natural africana de base, possui um projeto chamado Decolonise Science que aborda esse problema enquanto constrói um corpus paralelo multilíngue de pesquisas africanas a partir da tradução para seis línguas locais de preprints publicados no AfricArxiv.
Esses exemplos mostram que as publicações multilíngues de acesso aberto requerem trabalho e recursos adicionais em comparação com as publicações monolíngues em inglês. Mesmo idiomas com um alto número de falantes, como o francês, enfrentam desafios para apoiar a publicação acadêmica multilíngue. Por exemplo, as recomendações do Érudit depois do Quebec Symposium for Scholarly Journals destacaram questões como o declínio no número de manuscritos enviados em francês, a supervalorização das publicações em inglês na avaliação de pesquisa e a dificuldade de recrutar revisores para artigos escritos em francês (Beth et al., 2024). Portanto, é importante estar ciente dos desafios da publicação multilíngue de acesso aberto para projetar políticas e infraestruturas que melhor a apoiem.
Respostas da associação INKE
Lucia Céspedes (assessora de pesquisa, Érudit):
Este texto destaca um ponto importante: que o desenvolvimento do HSS Commons tem sido orientado pelos debates atuais em torno do multilinguismo não apenas em publicações acadêmicas tradicionais, mas também em iniciativas abertas e inovadoras de compartilhamento de conhecimento. Os exemplos de infraestruturas apresentados mostram que há um consenso crescente sobre a importância da ciência multilíngue entre as comunidades acadêmicas em todo o mundo. Esse consenso leva ao reconhecimento de que tais comunidades devem ser fortalecidas e dotadas de infraestrutura adequada para que possam florescer ao lado dos circuitos dominados pelo inglês. Portanto, o reconhecimento de iniciativas com décadas de experiência e trajetória, bem como das novas que estão surgindo, é oportuno e bem-vindo.
Laura Baumvol (Professora, Universidade da Colúmbia Britânica):
Este post oferece uma valiosa perspectiva geral da publicação multilíngue em acesso aberto, e a inclusão da Rede SciELO, a maior provedora de periódicos indexados pelo Directory of Open Access Journals (DOAJ), abrangendo 15 países (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, México, Peru, Portugal, África do Sul, Espanha, Uruguai, Venezuela e Paraguai), é particularmente importante. O SciELO incentiva publicações com o uso simultâneo de inglês e português ou espanhol, o que aumentou substancialmente o público de periódicos latino-americanos e a disseminação do conhecimento produzido na região, ilustrando como o multilinguismo pode ser operacionalizado em larga escala.
Historicamente, nenhuma outra região do mundo adotou periódicos de acesso aberto indexados internacionalmente na mesma medida que a América Latina (Miguel et al., 2011). Em 2013, o SciELO Citation Index foi integrado à Web of Science (Clarivate Analytics, s.d.). Embora essa integração seja fundamental para aumentar a visibilidade global da pesquisa latino-americana, ela também evidencia uma tensão persistente: como equilibrar a disseminação mais ampla do conhecimento sob o risco de se conformar a padrões dominantes – muitas vezes centrados no inglês – dos sistemas de avaliação acadêmica que definem o que é considerado pesquisa de “alta qualidade”, como fatores de impacto, métricas de citação e rankings de periódicos?
O exemplo do SciELO destaca a importância do investimento a longo prazo em infraestrutura. Como sugere o post, a construção de sistemas multilíngues exige mais do que soluções tecnológicas; depende de um alinhamento político sustentável e do engajamento da comunidade. De modo geral, o SciELO exemplifica como iniciativas regionais podem contribuir para o desenvolvimento e a democratização do cenário global de comunicação científica, tornando-o mais inclusivo.
Referências
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del Rio Riande, G., & Lujano Vilchis, I. (2024). How Balanced Is Multilingualism in Scholarly Journals? A Global Analysis Using the Directory of Open Access Journals (DOAJ) Database. The Journal of Electronic Publishing, 27(1), Article 1. https://doi.org/10.3998/jep.6448
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Kulczycki, E., Guns, R., Pölönen, J., Engels, T. C. E., Rozkosz, E. A., Zuccala, A. A., Bruun, K., Eskola, O., Starčič, A. I., Petr, M., & Sivertsen, G. (2020). Multilingual publishing in the social sciences and humanities: A seven-country European study. Journal of the Association for Information Science and Technology, 71(11), 1371–1385. https://doi.org/10.1002/asi.24336
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